Farmácias de Bragança reportam falta de medicamentos para a tensão, depressão, colesterol e até antibióticos, mas o maior problema está na falta de insulina
A falta de medicamentos está a tornar-se um grave problema para os doentes que não podem prescindir de determinados fármacos para ter qualidade de vida. É o caso de Fátima Afonso. Tem 52 anos e problemas na tiróide o que, por consequência, lhe trouxe a diabetes. Foi diagnosticada em janeiro.
O Ozempic, um medicamento que lhe controla os açúcares, é a sua salvação, não fosse exatamente este um dos fármacos que mais falta no mercado. A guerra na Ucrânia está a ter impacto na produção e comercialização de medicamentos, não só pela falta de substâncias, como também de alumínio e papel para a criação das embalagens. Nunca se viu numa situação destas. Toma medicamentos há muitos anos e esta é a primeira vez que vê a sua qualidade de vida a ser posta em causa devido à falta de Ozempic
Como é que se chega a uma altura que deixam esgotar um medicamento que faz tanta falta a tanta gente”, afirmou. Esteve um mês sem conseguir tomar o medicamento, porque não há à venda. E já lhe faz “muita falta”, até porque os sintomas vieram logo atona. “Senti muita vontade de comer doces, senti muita sede, um cansaço extremo principalmente ao final do dia, algumas tonturas e via mal”, contou. A necessidade fê-la recorrer a conhecidos de outras partes do país para saber se era possível arranjar o medicamento, mas nada feito.
“Tenho uma amiga que é farmacêutica no Porto, ela deu-me logo a informação de que não havia. Dentro do Porto, tentei também em Matosinhos, tenho uma prima que mora lá e também não conseguiu. Tentei também em Lisboa”, disse. Foi obrigada a voltar a pedir uma consulta para que o Ozempic fosse substituído por outro medicamento. Há uma semana que o está a tomar, mas isso não significa que o bem-estar tenha voltado. “Tomar o medicamento substituto é quase o mesmo que se não tomasse nada”, referiu, mostrando- -se bastante preocupada com a situação, porque não acredita que se resolva tão cedo. O maior défice está nas insulinas e arranjar um fármaco substituto não é fácil. Mas também estão a faltar medicamentos para a tensão, colesterol, depressão e até antibióticos. Nestes casos ainda há alternativa. “Também já começamos a sentir falta de antibióticos, foi a falta maior desta semana, que para já não é o que mais preocupa, porque temos os genéricos e conseguimos colmatar essa situação”, explicou Micaela Pires, diretora técnica da farmácia Nova Central, em Bragança.
Outro dos produtos a esgotar foi também o xarope Brufen. “As farmácias estão atravessar um período muito difícil em que há muita falta de medicamentos”, afirmou, acrescentando que recebem chamadas de pessoas que estão no “Porto, Coimbra e Lisboa”, porque “há aquele sentimento de como estamos no interior e são meios mais pequenos, que ainda pode haver em stock, mas não há”. As farmácias estão a receber os medicamentos de forma rateada por parte dos armazenistas, para que mais estabelecimentos possam receber.
Esta é uma situação que o preocupa “bastante”, porque já sabe que quando voltar à farmácia para comprar o medicamento, a resposta não é a que quer ouvir. “A diabetes é uma doença muito complicada, se não tomar o Ozempic tenho uma sede constante, um cansaço, os níveis da diabetes sobem e depois não tenho como os controlar”, contou, salientando que este é um “medicamento milagreiro” e que com ele vive “muito melhor”. Há pessoas que estão mesmo a falhar os tratamentos, porque as farmácias não conseguem responder às suas necessidades. Acontece na farmácia Cantarias, em Bragança, onde a rutura de stock também é um problema
“A Ozempic que é uma excelente alternativa para os diabéticos, tornou-se eficaz em termos de perda de peso e houve algumas situações em que foi utilizado e depois ficamos com os diabéticos limitados ao seu acesso, quando ele está a ser utilizado para esses fins”, apontou Juliana Silva. E perante este cenário, as farmácias são também obrigadas a racionar os fármacos. “Aquilo que fazemos é ratear uma caixa por utente para que todos possam ficar satisfeitos”, explicou a directora técnica da farmácia Cantarias. O Inderal é outro dos medicamentos que está a faltar no mercado e possivelmente só chegará em março do próximo ano. Para já, o Infarmed “autorizou um lote estrangeiro do Propanolol 10mg, que é o Inderal 10”, mas do Inderal 40 “não há mesmo produção”. E com Espanha já aqui ao lado, há mesmo quem esteja a ir ao país vizinho comprar este medicamento utilizado para o controlo dos batimentos cardíacos, em casos de hipertensão arterial.
“O que nós sabemos, de acordo com os utentes, é que os médicos estão a dizer aos doentes para irem a Espanha, porque existe a dosagem de 40 mg”, adiantou Eugénia Batista, diretora técnica da farmácia Bem-Saúde, também em Bragança.